Lidar com a dor da morte de alguém querido

Lidar com a dor da morte de alguém querido

Lidar com a dor da morte de alguém querido

É muito duro perdermos alguém importante. É como se uma parte de nós morresse também. 

O luto é uma experiência natural e idiossincrática, que ocorre em consequência da morte de alguém (pessoa ou animal) ou da perda de algo significativo, que pode incluir uma relação de amizade ou amorosa. Esta ausência terá reflexo em vários aspectos da vida da pessoa: afetivo, funcional, económico, familiar, na gestão das tarefas domésticas ou dos filhos e nas atividades em geral.

Considerando neste artigo a morte de uma pessoa querida, podemos dizer que as reações ocorrem de acordo com vários aspectos, como sejam: a personalidade da pessoa enlutada, a fase de vida em que se encontra, a qualidade da relação com a pessoa que morreu, a causa de morte (natural, acidente, suicídio, etc.), a idade do falecido e a rede social que a pessoa enlutada dispõe (familiares, amigos ou profissionais de ajuda). Lidar com a perda e adaptar-se à ausência daquela pessoa é o que se chama o processo de luto.

É importante, embora difícil, aceitar que quando as pessoas morrem não voltam. O desafio consiste em refazer a vida de forma gratificante, com tempo, e sem sentimentos de culpa. Voltar a criar laços com as pessoas e com a vida. Num período inicial isto pode ser muito doloroso e até rejeitado.

Num processo de luto considerado adaptativo, a pessoa enfrenta sentimentos, emoções e reações fisiológicas associados à perda e às circunstâncias da morte, como por exemplo, choro fácil, tristeza, desânimo, distúrbios gastrointestinais, dificuldades de sono, falta de energia, sentimento de vazio, aperto no peito, entre outros. Embora estes sentimentos possam persistir por algum tempo, aos poucos, a pessoa vai encontrando modos adequados de expressão de emoções e começa a construir uma relação diferente com a pessoa perdida, à distância. É importante compreender que esta relação não implica o desligamento total da pessoa falecida, mas uma mudança de significado, em que as lembranças são a ponte entre o passado, o presente e o futuro. Ao fim de alguns meses, a pessoa enlutada consegue voltar a criar laços e a dedicar-se à sua vida, lembrando-se de quem morreu com tristeza, mas sem se sentir tão devastado emocionalmente.

O luto patológico poderá estar presente quando a dor for excessivamente prolongada no tempo ou incapacitante e intrusiva; quando o comportamento de negação persistir e a pessoa não conseguir aceitar ou reorganizar-se emocionalmente, ou o falecido continuar a dominar os pensamentos e a vida emocional do enlutado durante mais de dois anos, havendo pouca alteração desde o momento da morte. A pessoa torna-se incapaz de realizar as tarefas básicas do dia-a-dia e os sintomas mais fortes persistem. Geralmente, as pessoas em luto patológico não se desfazem dos bens do falecido (sendo natural guardar algumas lembranças), falam como se ele ainda estivesse vivo, choram como se a morte tivesse sido há pouco tempo e têm comportamentos orientados para o passado, quando o falecido era vivo.

Para lidar com o luto, revela-se necessária a exteriorização dos sentimentos e das emoções, pois permite a elaboração de mesmos e dissipa os sentimentos de culpa, raiva e desespero. A dor e o sofrimento devem ser experienciados de modo a cicatrizar e atenuar a perda.

É importante falar sobre a pessoa que morreu, os sentimentos sobre a morte, o velório, o funeral, o que a pessoa gostava, lembrar-se do seu aniversário e de alguma forma simbólica, comemorar. Não deve haver tabus sobre este assunto. A pessoa enlutada deve começar a reagir emocionalmente à medida que experiencia a dor e a formar a sua nova identidade sem aquela pessoa.

Aceitar a morte não significa não sofrer ou esquecer quem morreu. É comum as pessoas avançarem e retrocederem na sua dor ao longo deste processo. A pessoa aprende a viver com a perda à medida que a energia emocional é reinvestida em outras pessoas, coisas e ideias. A pessoa que morreu não é esquecida, mas antes colocada num local especial que permite não só ser relembrada, mas também o desenvolvimento de novos laços com outras pessoas.

Não existe uma forma mais correta de fazer o luto, sobretudo sem sofrimento. Quanto mais a família fornecer suporte e respeito pelas necessidades de cada elemento, mais rápida e saudável (embora sempre dolorosa) será a reorganização. Fundamental é respeitar o tempo de cada um e procurar formas que sejam flexíveis e adaptadas à personalidade de cada pessoa para lidar com a realidade.

No que concerne às crianças, estas devem ter conhecimento sobre a morte para que a encarem como parte da vida. Isto revela-se benéfico do ponto de vista do seu desenvolvimento emocional. A morte deve ser-lhes explicada com naturalidade. Esta experiência pode ajudá-las a crescer e amadurecer ganhando competências para lidar com as perdas futuras.

 

Vera Ramalho

Psiquilibrios | www.psiquilibrios.pt

Sem comentários

Publicar um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Loading...