O Bullying não é uma brincadeira de crianças

O Bullying não é uma brincadeira de crianças

O Conceito de Bullying

Universalmente, a expressão bullying é utilizada quando se pretende referir às atitudes intencionais e repetitivas de agressão, violência física ou psicológica e ameaças por parte de um ou mais colegas sobre um outro colega ou grupo de colegas (e.g., Olweus,1993; 2000; Pereira et al., 2002; Toews & Ramalho, 2012). Ou seja, este tipo de agressão acontece quando uma criança mais forte (não só fisicamente) magoa, assusta e humilha, de forma continuada e propositada, outra criança. Alguns comportamentos de bullying são: roubo, provocação, intimidação, agressões verbais e/ou físicas, ameaças, humilhação, obrigar os outros a darem-lhes as suas coisas (objetos, dinheiro, etc.).

O bullying não é uma bulha entre crianças, nem somente uma provocação. É mais do que isso, porque a criança que é vítima é humilhada e intimidada e não se consegue defender (Toews & Ramalho, 2012). Três critérios principais caracterizam o bullying: (1) intencionalidade (o agressor quer causar mal-estar e controlar); (2) frequência dos comportamentos, que são repetidos ao longo do tempo e assumem um caráter continuado; (3) desequilíbrio de poder entre o Bully e a criança agredida, que não se pode defender.

 

Prevalência

A prevalência do bullying em Portugal é conhecida através das investigações de Pereira et al. (1994) que demonstra que 21% das crianças entre os 7 e os 12 anos nunca foram agredidas, 73% são agredidas «às vezes» e 5% «muitas vezes» (Carvalhosa, Lima & Gaspar de Matos, 2001).

 

Quem são as vítimas de Bullying?

Qualquer um pode ser vítima, mas há crianças mais vulneráveis. Algumas características de crianças mais susceptíveis são: ter problemas de saúde, ter dificuldades educativas, ser novo na turma ou na escola, ser muito bom aluno. Geralmente são crianças que têm uma aparência diferente (e.g., excesso ou baixo peso, gaguejam, usam óculos, não seguem a moda), mostram-se passivas, pouco assertivas, introvertidas e incapazes de se defenderem (Toews & Ramalho, 2012). As vítimas podem sentirem-se assustadas ou sozinhas e procuram evitar as situações onde podem vir a ser incomodadas, aumentando o seu isolamento.

Os sinais e sintomas mais comuns de uma criança que está a ser vítima de Bullying são: recusa à escola, dores de cabeça, dores abdominais, pesadelos, ansiedade, baixo desempenho académico ou desinteresse, isolamento, irritabilidade, dificuldades de atenção e de concentração, autoagressão.

 

Consequências para as vítimas

A investigação revela que o bullying afeta o bem estar psicológico, físico e o ajustamento psicossocial da sua vítima, podendo gerar um impacto que perdura para toda a vida (e.g., Olweus, 2000; Pereira et al., 2002; Fante, 2005; Rigby, 2000). As consequências são inúmeras e incluem sintomas físicos (vómitos, febre) e psicológicos (sentimentos de tristeza, preocupação, insegurança, raiva, solidão, depressão, ansiedade, medo), fracasso ou abandono escolar (ausência de vontade de ir à escola (sem motivo aparente para os pais), falta de atenção e concentração, redução do rendimento escolar), que podem culminar num reduzido ajustamento social, comportamentos de auto-agressão, ideação suicida ou em suicídio efetivo. Estas crianças encontram-se em maior risco de depressão devido ao sofrimento emocional a que estão expostos. Estudos com crianças dos 8 aos 16 anos de idade, demonstram que a depressão encontra-se significativamente correlacionada com a vitimização (Bond et al., 2001; Carvalhosa, Lima & Matos, 2001). Rigby (2000) acrescenta as repercussões ao nível da saúde mental e física da criança, identificando quatro grandes categorias de condições de saúde negativas: (a) percepção de bem-estar psicológico (geralmente baixo); (b) ajustamento social (geralmente fraco); (c) stress psicológico (frequentemente elevado); (d) e bem-estar físico (geralmente baixo).

 

O Papel da Escola

O bullying é uma problemática causada por múltiplos fatores, por vezes de difícil controle. A melhor forma de evitar que o bullying se instale numa escola é a sua prevenção. Ninguém deve ignorar a existência do bullying e o seu reconhecimento deve começar na formação dos profissionais (educadores, professores, auxiliares de ação educativa e outros funcionários) e na atuação através da sensibilização de adultos e crianças desde o Jardim de Infância.

Como forma de controlar o bullying, é importante que a escola adote medidas que envolvam toda a comunidade escolar, contribuindo positivamente para a formação de uma cultura de não-violência. A escola é o local onde acontece a maior parte dos casos de bullying. Em consequência, professores, diretores, funcionários e outros agentes da ação educativa têm um papel importante a desempenhar, identificando se alguma criança está a ser vítima e tomando medidas que garantam um local seguro e livre de agressões. Se um adulto tem conhecimento de alguma situação de bullying é sua obrigação denunciar e agir, procurando estratégias adequadas, como contrariar crenças, atitudes e percepções que podem estar a causar e a manter a agressão. Através da ação poderá travar este comportamento e ajudar não só a vítima, mas também o agressor.

As escolas devem ter um plano de ação para estas situações. Devem conhecer, identificar e usar as suas competências para resolver este problema. Devem ser implementados programas de prevenção sobre o bullying e diretrizes para a promoção de um ambiente seguro, estabelecendo regras, direitos e responsabilidades junto de toda a comunidade escolar. Estes programas devem ser divulgados sob a forma de cartazes na escola, bem como regras anti-bullying.

 

Intervenção Psicológica

Os objetivos gerais da intervenção psicológica com uma criança vítima de bullying incluem: proporcionar à criança suporte emocional e estratégias eficazes para enfrentar as consequências do bullying; treino de assertividade e de auto-controlo; resolução de problemas; promoção da interação com pares prosociais; ênfase no empowerment (em concreto, promover o seu sentido de competência e dotar a criança de capacidades de confronto para momentos futuros) (Toews & Ramalho, 2012); promover a compreensão dos pais sobre o que é o bullying e das consequências deste fenómeno para o desenvolvimento da criança; aumentar os indicadores da qualidade do relacionamento entre pais e filhos, incluindo: suporte social, resolução de conflitos, comunicação, expressão emocional.

 

Vera Ramalho | Psiquilibrios – Centro de Consulta Psicológica

psiquilibrios@gmail.com

 

Referências

Achenbach, T., & Rescorla, L. (2013). Questionário de Comportamentos da Criança – CBCL 6-18 – versão portuguesa da Child Behavior Checklist. Braga: Psiquilíbrios Edições.

Bond, L., Carlin, J., Thomas, L., Rubin, K. & Patton, G. (2001). Does bullying cause emotional problems? A prospective study of young teenagers. British Medical Journal, 323, 480-484.

Carvalhosa, S., Lima, L. & Matos, M. (2001). Bullying: A provocação/vitimização

Olweus, D. (1993). Bullying at School: What We Know and what We Can Do. England: Blackwell Publishing. Disponivel em Google Books.

Olweus, D. (2000). Bullying at School. Oxford: Blackwell Publishers.

Pereira, B. (2002). Para uma Escola sem Violência. Estudo e Prevenção das Práticas Agressivas entre Crianças. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

Pereira, B. (2006). Prevenção da Violência em contexto escolar: diagnóstico e programa de intervenção. In João Clemente de Souza Neto e Maria Letícia B. P. Nascimento. Infância: Violência, Instituições e Políticas Públicas. São Paulo: Expressão e Arte Editora, 43-51.

Toews, R. & Ramalho, V. (2012). Bully: Um mauzão que gostava de magoar os seus colegas. Braga: Psiquilíbrios Edições.

Rigby, K. (2000). Effects of peer victimization in schools and perceived social support on adolescent well-being. Journal of Adolescence, 23 (1), 57-68.

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