Os Desafios de uma Parentalidade Positiva

Os Desafios de uma Parentalidade Positiva

A estrutura da família, os modelos de educação e a própria sociedade sofreram mudanças profundas ao longo do tempo que implicam a necessidade de maior reflexão pelos pais. Se num momento as crianças precisam de carinho e segurança, logo a seguir querem ser independentes e provar que são capazes de fazer tudo sozinhas. O que fazer? Permitir tudo? Deixar fazer para experimentar? Castigar? Conversar?

É socialmente aceite que os pais (ou outros agentes responsáveis pela criança) devem exercer a tarefa de ensino das normas e das regras aos seus filhos de modo a que a criança desenvolva o seu sentido de pertença à sociedade e seja, igualmente, abraçada por esta.

A construção e manutenção do bem-estar da família deve ser um projeto de todos, onde caibam sonhos, regras, colaboração, diversão, respeito e união. Todos devem respeitar e procurar ampliar a essência de cada um, fazendo sobressair as suas capacidades e as do outro. Isto ajudará a família a crescer de forma harmoniosa.

Numa família nem o poder nem a responsabilidade devem estar distribuídos igualmente entre pais e filhos. A segurança das crianças está vinculada a um sentimento de controle das regras e tomada de decisões que cabe aos pais. Na verdade, elas precisam ter a certeza de que alguém sabe o que é melhor para si e vai guia-la no melhor caminho. Não devem ser as crianças a tomar decisões, elas não estão preparadas para tal tarefa. Necessitam, sim, de ser ensinadas a partilhar, a esperar, a respeitar os outros e a aceitar responsabilidade pelo seu comportamento.

Houve uma mudança demasiado visível nos modelos de educação, na estrutura da família e na própria sociedade para se ignorar as dificuldades com que os pais são confrontados diariamente na melhor resposta a dar aos seus filhos. Esta mudança na educação parental resultou na passagem de uma relação de extrema rigidez para uma relação permissiva, mas há que considerar o meio termo. O resultado desta educação permissiva, muitas vezes cheia de boa vontade, pode trazer consequências perniciosas tanto para os pais como para os filhos: É frequente encontrarmos crianças desorientadas e que precisam de equilíbrio. Em resumo, os pais perderam-se entre a vontade de ter proximidade com os filhos (por vezes para contrapor aquilo que tiveram com os seus próprios pais) e a permissividade excessiva que leva a criança a um sentimento de poder fazer o que quer, sem consequências. Esta forma de educar com um foco na relação é, sem dúvida, positiva, contudo, não pode ser confundida com a ausência de fronteiras, transformando a relação dos pais com a criança numa relação de colegas.

As práticas educativas são a maneira dos pais ensinarem aos seus filhos a existirem como seres sociais, ajudando-os a integrarem-se no mundo que os rodeia. Representam, ao mesmo tempo, um desafio que se coloca aos pais e que exige respostas e reflexões constantes, que nem sempre são fáceis de se concretizar. O afeto, a firmeza na imposição de regras e os elogios devem acompanhar a relação entre pais e filhos.

A prática clínica demonstra que muitos pais estão efetivamente preocupados e que desejam estar e ser verdadeiramente próximos dos seus filhos, mas, por vezes, encontram dificuldades em conciliar as suas ideias sobre a educação com as exigências da parentalidade. Por exemplo, é comum os pais dizerem que querem ser próximos dos filhos e por isso acabam por deixá-los fazer o que querem, mas isto apenas ensina a criança que gostar de alguém implica permitir tudo e até faltar ao respeito. Em muitos casos, essas dificuldades, por vezes acrescidas de crenças ou mitos sociais, acabam por facilitar o aparecimento dos problemas. No que concerne à criança, estes problemas podem refletir-se em dificuldades de aprendizagem, impulsividade, baixa tolerância à frustração (reforçada pelos ambientes permissivos), agressividade, dificuldades na tomada de perspectiva do outro e na identificação de alternativas de resolução de problemas. Estes comportamentos podem ser originados e mantidos pela ausência de regras e pela permissividade dos pais.

Ao contrário do que possam pensar muitos pais, é logo nos primeiros anos de vida que se deve estabelecer regras às crianças, sem medo de que elas fiquem “traumatizadas”, como é vulgar pensar-se. A criança deve absorver desde o início as regras da sociedade. Se aos três anos batem nos pais, o que vão fazer aos onze? Portanto, não é de esperar que “com o crescimento passe”, como algumas pessoas acreditam. Embora o estabelecimento de limites possa levar as crianças a sentirem-se frustradas, desta forma elas aprendem a controlar-se e a ajustar os seus desejos aos dos outros.

Viva a parentalidade de forma tranquila, procurando equilibrar o afeto com as regras. Ser pai ou mãe pode ser um grande desafio, mas é, sem dúvida, a tarefa mais recompensadora da vida de uma pessoa.

O livro “Lá em Casa Mandam Eles?” reúne uma série de casos práticos, que, não sendo um receituário, pode ser de grande utilidade para os pais, sobretudo pelas soluções sugeridas. Ao longo do livro, é explicado quando é que se deve ignorar uma birra, como mudar os comportamentos agressivos e que tipo de problemas acarreta para a vida do casal um filho que apresenta problemas de comportamento.

 

Vera Ramalho

Psicóloga e diretora do Psiquilibrios

Este artigo foi publicado na revista SPOT de Braga, em junho de 2018.

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