As práticas educativas parentais e a socialização da criança

As práticas educativas parentais e a socialização da criança

A família é o primeiro meio de socialização da criança, sendo de onde esta recebe a base dos valores morais e o ensinamento do código da sociedade em que se irá movimentar. Uma das funções da família é favorecer a protecção e socialização dos seus membros, como resposta às necessidades da sociedade a que pertence. Nesta perspectiva, as funções da família regem-se por dois objectivos, sendo um de nível interno, como a protecção psicossocial dos membros, e o outro de nível externo, como a acomodação a uma cultura e sua transmissão. A família deve, então, responder às mudanças externas e internas de modo a atender às novas circunstâncias sem, no entanto, perder a continuidade, proporcionando sempre um esquema de referência para os seus membros.

É socialmente aceite que cabe aos pais (ou outros agentes responsáveis pela criança) a tarefa de ensino das normas e das regras para se viver em sociedade, apesar de nem sempre ser consensual a forma como esta tarefa é posta em prática.
As práticas educativas são a maneira dos pais ensinarem aos seus filhos a existirem como seres sociais, ajudando-os a inserir-se no mundo que os rodeia. As práticas educativas representam um desafio que se coloca aos pais e que exige respostas e reflexões constantes, que nem sempre são fáceis de se concretizar.

O modelo de educação dos pais foi, na maior parte das famílias, herdado de gerações anteriores, mas os novos pais deparam-se com dúvidas e receios acerca dessa forma, às vezes bastante severa, de educar e, em consequência, a desligar-se de algumas práticas, procurando uma matriz educacional onde a relação positiva entre os pais e filhos é mais valorizada. Esta forma de educar com um foco na relação é, sem dúvida, positiva, desde que não seja confundida com a ausência de fronteiras, transformando a relação dos pais com a criança numa “relação de colegas”.

Com o nascimento dos filhos, os pais vão ter de elaborar o seu próprio estilo parental de educação. Para a formação desse estilo parental, há necessidade
de conjugar as suas representações de parentalidade (que trazem da sua família de origem), com as crenças e expectativas culturais e sociais sobre a educação, que absorvem do convívio em sociedade. Assim, vão ter de conjugar os seus modelos individuais (Pai + mãe) para encontrar um modelo próprio de parentalidade que deverá ajudá-los a manter o
equilíbrio nas suas decisões.

Os pais, na maior parte das vezes com boa intenção, querem fazer diferente daquilo que lhes foi dado na infância, mas a grande dificuldade tem residido em encontrar um equilíbrio entre a recusa do autoritarismo e a tendência à permissividade.

A prática clínica demonstra que existem pais preocupados e que desejam estar e ser verdadeiramente próximos dos seus filhos, mas por vezes encontram dificuldades em conciliar as suas ideias sobre a educação com as exigências do dia-a-dia (Por exemplo, é comum os pais dizerem que querem que sejam os filhos a vestirem-se sozinhos de manhã, mas que o tempo não permite e acabam por fazer por eles). Em muitos casos, essas dificuldades, por vezes acrescidas de crenças ou mitos sociais, acabam por facilitar o aparecimento dos problemas de comportamento. No que concerne à criança, estes problemas podem refletir-se em problemas de aprendizagem, impulsividade, baixa tolerância à frustração (reforçada pelos ambientes permissivos), agressividade, dificuldades na tomada de perspectiva do outro e na identificação de alternativas de resolução de problemas.
Estes comportamentos podem ser originados e mantidos pela ausência de regras e pela permissividade dos pais.

A educação de uma criança é um convite ao exercício da criatividade, podendo proporcionar aos pais momentos de aprendizagem e de alegria que quando bem geridos podem perdurar e não só facilitar a sua relação com a criança, como também a vivência desta com os outros. Socializar é educar, e não basta boa vontade para o fazer, é preciso investimento.
É ainda importante romper com alguns clichés muito difundidos socialmente como por exemplo, “Não posso contrariar o meu filho porque ele é pequenino” ou “Não posso contrariar o meu filho porque passo pouco tempo com ele, senão ele vai deixar de gostar de mim”.

Felizmente há sempre a possibilidade das pessoas questionarem o que as deixa insatisfeitas na sua relação com a criança e procurar outras formas de agir, mais de acordo com as suas ideias e ideais sobre a educação. Este é, sem dúvida, o primeiro passo para a mudança.

Há um conjunto de práticas que podem ser adotadas pelos pais para favorecer o equilíbrio entre o afeto e a disciplina e proporcionar uma relação entre pais e filhos saudável:
• Servir como uma base segura para a exploração, através do apoio emocional e da criação de desafios apropriados ao nível de desenvolvimento da criança.
• Expressar emoções e promover a expressão pela criança.
• Estabelecer regras e promover o seu cumprimento Pais que não tem regras definidas fazem com que a criança se sinta insegura e confusa, pondo a prova a cada instante uma nova regra.
• Ser consistente.
• Promover a resolução de problemas.
• Estar disponível para dar respostas às solicitações dos filhos.
• Controlar as próprias emoções.
• Promover e encorajar a independência e individualidade da criança.
• Promover a comunicação aberta entre pais e filhos, escutando os pontos de vista de cada um e encorajando as trocas verbais.
• Promover encontros com os colegas para brincar/ conviver (podem ajudá-los a desenvolver habilidades interpessoais necessárias para o estabelecimento e manutenção de relações com novos pares).

Artigo de: Vera Ramalho

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