Querer normalidade

Querer normalidade

De Sílvia Fernandes

Sem demagogias, ou pelo menos vou tentar. Que alunos desejaria para a minha direção de turma?

Daqueles alunos que tragam boa educação de casa, independentemente da classe social a que pertençam (as etiquetas das roupas ou as árvores genealógicas ainda não fazem parte dos critérios gerais de avaliação); alunos com diferentes modos de ver ou de estar na vida por razões emocionais, de dificuldades de aprendizagem, de ideologias, ensinando-nos a todos que a pluralidade é uma qualidade admirável no ser humano; outros que achem que a escola é o máximo porque é a ponte para um futuro promissor, outros que achem que a escola é o máximo porque onde iriam ser diferentes (por vezes irreconhecíveis) do modo como são em casa?; e até mesmo alunos que não gostem de escola.

O que tenho eu para lhes dar como diretora de turma: muitas orientações, umas pitadas de ironia, a minha atenção constante, o meu telemóvel para enviar sms aos encarregados de educação, o direito a serem ouvidos, modos de lhes abrir os sonhos, de lhes mostrar que neste mundo, que nem sempre tem área de justo e equitativo, existe a possibilidade de alcançarmos o que pretendemos se procurarmos com afinco; que sim, que há momentos em que as circunstâncias são mais fortes do que nós, por vezes avassaladoras, porque a escola também vive do que se vive em família e com os amigos e, então, aprenderão o significado de “resiliência”; que sinceridade não é dizer tudo o que se pensa; que os tabuísmos nunca têm um real significado, são meramente ofensivos e, por isso, completamente dispensáveis; que a vida é para ser vista com bons olhos; entender que o sorriso é sempre a nossa melhor definição pessoal; que este mundo pode ser sempre melhor e que todos podemos participar nisso; que a falta de consciência solidária, bem como a falta de atitude ecológica devem ser entendidas como pecados capitais na nossa consciência humana (sem qualquer tipo de alusão religiosa); e que a palavra “excessos” rimará sempre com “insucessos” (em todos os pormenores da vida…); fazê-los entender o verdadeiro e profundo significado das palavras de Miguel Torga quando diz, no seu poema Viagem, “Em qualquer aventura, / O que importa é partir, não é chegar”; e que, fundamentalmente, tudo obedece à lei do retorno e que surpreender os outros deve ser feito sempre na perspetiva positiva porque deixaremos estupefactos os que gostam e principalmente os que não gostam de nós.

No fundo, entendo que o que devo querer é uma turma normal porque normalidade é também o que eu tenho para lhe dar.

O difícil é que essa normalidade, tratando-se de quatro mãos cheias de alunos (ou mais!), é sinónimo de absoluta diversidade e é aí que residem as acentuadas dificuldades para a adequação do diretor de turma (mais ainda do que na montanha de burocracia que ainda acresce a isso tudo, imagine-se!). O DT tem, pois, duas opções fáceis: ser um DT “fixe”, pouco orientador, completamente permissivo, ou um DT “Damastes” que não dá espaço aos alunos para que sejam eles próprios.

Depois há ainda outra possibilidade, a do DT que se preocupa de verdade, com atitudes mais do que com palavras, e que faz grandes investimentos emocionais (subentenda-se desgastes) de si próprio. Então, se, afinal, ser um bom diretor de turma não dá medalhas no final do ano, perguntar-se-á: por que não optam por uma das outras duas possibilidades? A razão é muito simples: entendem que não lhes daria prazer, aliás, não lhes daria por certo sossego mental, e também porque ainda não aceitaram que está tudo irrepreensivelmente bem feito ou que está tudo irremediavelmente perdido.

 

* Sílvia Fernandes é professora de línguas no ensino básico e secundário, presentemente a lecionar no Agrupamento de Escolas D. Manuel de Faria e Sousa. Colabora com o Psiquilibrios enquanto revisora editorial.

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