Se não for o voucher para um passeio de Lamborghini, pode ser o resto?

Se não for o voucher para um passeio de Lamborghini, pode ser o resto?

Não sou adversa à mudança; também não poderei dizer que sou sempre a favor. O nosso Mundo, ainda muito longe deser perfeito, é a prova disso: pelas suas estagnações e até regressões de índole humanista. No entanto, se recuarmos uns séculos, e nos imbuirmos na temática da deficiência, ao vermos tempos em que a deficiência era tratada com completoescárnio, acentuada violência emocional e não menos física, não podemos dizer que estamos no ponto perfeito de respeito da diferença, mas diríamos que já avançamos uns largos e positivos passos! As instituições escolares têm contribuído emmuito para tal, é inegável.

Em Portugal, nos últimos 30 anos, passamos por três grandes documentos em que se nos apresenta o enquadramento da diferença do seguinte modo: Ensino Especial, Educação Especial e Escola Inclusiva. Longas teses de críticas foram produzidaspor causa dos dois primeiros. Tais críticas (entendam-se como essencialmente negativas) não recaíam especificamente nosdocumentos em si, na sua redação ou na sua orientação, mas na aplicabilidade dos mesmos.

Sobre o novo documento, enquanto professora, não temo, mas,para já, desconfio. O Decreto-Lei n.o 54/2018 de 6 de julho, quedá abertura à forma especial como devemos ter em considera-ção as dificuldades diversas de todos os nossos alunos, dá asubentender, para começar, que não o fazíamos antes. Apoios de índole académica, social e psicológica, individuais e em grupo, anunciados numa série de documentos que nem vou enunciar, dado que me ocuparia umas boas linhas, que levavam a práticas específicas, eram já uma realidade comum. O conceitobasilar subjacente ao documento atual: trabalhar para o sucesso dos alunos (agora?)… O que andamos nós, então, a fazer to-dos estes anos?

Essa é, pois, uma ideia muito maléfica, contratodos os que trabalham em escolas, desde sempre, de forma inclusiva! Com o decreto em questão, parece ser dada autorização à escola para que esta faça o que, na realidade, sempre fizera: tentar chegar a todos os alunos, muito além do respeito pelas diferentes crenças, pelas diferentes atitudes e perspetivas, até mesmo perante as aprendizagens e a importância que estas possam ter na sua vida, muito mais do que por tudo isso, a procura de respeito pelo ser, que constitui a essência, tão única em cada um de nós, portanto, em cada um dos alunos.

Surge ainda outra questão: o receio do estigmatizar acaba por levar ao excesso do generalizar. Há para todos os alunos a necessidade de orientações/apoios diferentes, disso ninguém duvida. Todavia, seria imprescindível que não se olvidasse que são ne- cessários para uns muito mais do que para outros. Essa generalização, torna-se, assim, uma temida vulgarização. Os organismos diretivos das escolas apoiam (vejo isso todos os dias), as equipas multidisciplinares apoiam (também vejo isso todos os dias),todos os que trabalham nas escolas envolvem-se nesse engenho de apoio (também vejo isso todos os dias), mas são todos obrigados a fazê-lo com o que têm, muito com base no bem-querer aos alunos, e com pouco mais do que isso, porque, tal como noutros tempos, dentro dos 30 anos referidos, a legislação não vem acompanhada de suficientes meios logísticos e humanos.

Talvez este artigo tenha sido um pouco precoce em relação à temática e faço votos, porque ainda sou crente na melhoria do ensino, também a este nível, de que o tempo, a curto prazo, porque é de crianças que falamos, venha negar estas minhas afirmações. Quem sabe se o meu pessimismo não venha a ser refutado pelo facto de, tal como as escolas estão a organizar-se e a embrenhar-se na assimilação/concretização deste novo documento, as instituições superiores de responsabilidade pela Educação estão, por certo, a fazer o levantamento das necessidades e, em breve, darão ordem para que sigam para a escola “caravanas” com todos os meios necessários para que as escolas se mos-trem capazes de pôr em prática (real) esta base teórica.

Sinto-me à vontade para criticar, numa forma de esperança, por- que o que há em mim é realidade, não é má vontade: eu quero ter todos os meus alunos na minha sala de aula, mas quero poder recebê-los bem. Apesar da escola criar sonhos e de os alimentar, nem sempre os consegue concretizar, e, por isso, não tenho a falsa esperança de que nessas “caravanas” de meios venha um voucher de aluguer de um Lamborghini para concretização de um sonho de um aluno que incluí na lista; contentar-me-ei com todos os outros pontos que dela constam. Confesso que, nas minhas aulas, gostava que alguns alunos não aprendessem mais do que o muito que já sabem sobre a dura realidade da vida (da sua em particular). Isto não é uma metáfora, nemuma analogia. Esse menino é meu aluno. E mesmo que eu dê Francês… e não Italiano, pela flexibilidade que me é permitida na minha prática pedagógica, farei desse objetivo/conteúdo um a par dos verbos “être” e “avoir”.

 

Sílvia Fernandes é professora de línguas no ensino básicoe secundário, presentemente a lecionar no Agrupamento deEscolas D. Manuel de Faria e Sousa, e colabora com o Psiquilibrios enquanto revisora editorial.

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