Entrevista a Miguel Gonçalves sobre Psicoterapia

Entrevista a Miguel Gonçalves sobre Psicoterapia

Esta entrevista foi publicada no nº 2 da revista Psiquilibrios em Revista.

 

1. O que é a psicoterapia?

A psicoterapia é uma forma de tratamento psicológico cujo objetivo é melhorar o ajustamento das pessoas face a problemas psicológicos e psiquiátricos. Idealmente a psicoterapia contribuiu para o desaparecimento dos sintomas (ou diminuição significativa) e para a melhoria da qualidade de vida dos pacientes.

2. Quem pode beneficiar de psicoterapia?

Sabemos através de estudos epidemiológicos que uma percentagem muito significativa de pessoas sofre de problemas psiquiátricos ao longo da vida, sendo os mais frequentes a depressão e as perturbações de ansiedade. A psicoterapia é útil para estas perturbações de intensidade moderada (e.g. depressão moderada, pânico, ansiedade social), sendo útil como coadjuvante ao tratamento psiquiátrico de perturbações mais sérias (e.g. esquizofrenia, depressão severa). Para além disso, a psicoterapia pode ser útil em situações em que não havendo perturbação psiquiátrica, há sofrimento psicológico resultante de múltiplos factores (e.g. gestão inadequada do stress, mudanças súbitas e indesejadas na vida das pessoas).

3. Pode explicar como os seus estudos têm demonstrado que a psicoterapia é eficaz?

Talvez seja melhor responder a esta questão enunciando algumas coisas que sabemos com toda a certeza, ao fim de várias décadas de investigação:

  1. A psicoterapia é eficaz, sendo comparável na maioria das perturbações ao tratamento farmacológico (e.g. depressão). Nalgumas perturbações a psicoterapia deve ser a primeira linha de intervenção e a medicação pode ser usada como coadjuvante (e.g. perturbação de pânico, insónia), noutras a medicação é absolutamente fundamental como primeira linha (e.g. esquizofrenia, perturbação bipolar) e a psicoterapia pode ser usada como coadjuvante
  2. O envolvimento do paciente é absolutamente fundamental para o sucesso da psicoterapia e é provavelmente a variável mais importante.
  3. Apesar de uma percentagem significa de pessoas melhorar com a psicoterapia, temos uma taxa de desistência do tratamento que é (aceitando que os estudos internacionais se aplicam a Portugal) em média de 20%.
  4. Há uma percentagem significativa de pessoas que não melhora, ou melhora pouco, com a psicoterapia.
  5. Os terapeutas têm uma enorme variabilidade de resultados terapêuticos. Há terapeutas que sistematicamente têm melhores resultados, há terapeutas que têm resultados pobres e a maioria situa-se no meio destes extremos.
  6. Sabemos muito mais que a psicoterapia funciona e em que situações funciona melhor, do que os mecanismos através dos quais funciona.

4. É possível explicar, com base nos seus estudos, como a mudança em psicoterapia acontece?

É precisamente uma parte deste processo que eu e a minha equipa de investigação temos procurado compreender. Basicamente, temos procurado perceber como ocorrem pequenas mudanças na vida das pessoas que podem ser amplificadas de tal modo que contribuem para mudanças mais significativas. As pessoas que tenham interesse em saber mais sobre isto podem consultar https://www.psi.uminho.pt/pt/investigacao/Processos_de_Mudanca_em_Psicoterapia

 

5. Sabemos que quanto mais grave for a problemática relacionada com uma pessoa, mais rígida ela pode ser. É possível ajuda-la com psicoterapia?

Depende de múltiplas variáveis: vontade de mudar e envolvimento do paciente, qualidade da terapia que é oferecida, apoio externo (família, amigos) para a mudança, etc. Às vezes casos que nos parecem difíceis à partida melhoram muito mais do que seria de esperar e o contrário também acontece: casos que pareciam muito simples, revelam-se muito complicados.

6. A maior parte das pessoas que nos procura quer mudar, mas, muitas vezes, devido a vários factores podem hesitar e “boicotar” a terapia. Isto é ambivalência. É possível ajudar as pessoas nestes momentos?

Eu não diria que as pessoas querem boicotar a psicoterapia. As pessoas muitas vezes hesitam se mudar é ou não uma boa ideia. Resolver esta dúvida ou hesitação, que pode até nem ser muito consciente para a pessoa, é muito importante no processo de mudança. Dou um exemplo fácil de entender: alguém que é excessivamente perfeccionista habitualmente sofre imenso com isso, mas se a pessoa tem sucesso na vida é fácil atribuir o sucesso ao seu modo perfeccionista de funcionar. Quando fica evidente que o perfeccionismo é responsável por muito sofrimento, a pessoa pode hesitar se faz sentido abandonar o perfeccionismo, tendo em conta a sua crença de que este modo de funcionar foi responsável pelo seu sucesso.

7. Nem sempre as pessoas estão preparadas para fazer psicoterapia, o terapeuta tem ferramentas para ajuda-la mesmo assim?

Temos ferramentas, não quer dizer que tenhamos necessariamente sucesso. Mais uma vez depende de imensas variáveis.

 

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